Chamada de Artigos para Dossiê "Descentrar o Antropos: o que isso significa para a pesquisa em educação?"
Educação & Realidade (UFRGS)
ISSN: 2175-6236
Prazo: segunda-feira, 30 de novembro de 2026
Faltam 88 dias para o encerramento
Descrição da Chamada
Organizadores:
Elizabeth Fernandes de MacedoI
Thiago RannieryII
John A. WeaverIII
I
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Curitiba/PR – Brasil
IIUniversidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro/RJ – Brasil
IIIGeorgia Southern University, Statesboro/Georgia – EUA
“Então se pode apostar que o homem se desvaneceria, como, na orla do mar, um
rosto de areia”. A conhecida observação final de Michel Foucault em As Palavras e as
Coisas tem ressoado por muito tempo nas ondas críticas dirigidas ao humanismo por
diferentes tradições pós-estruturalistas e por seu projeto compartilhado de descentramento
do sujeito. Ao longo do último quartel do século XX, uma variedade de movimentos
políticos e epistemológicos chamou a atenção para a economia excludente dos discursos
sobre o que significa ser, viver, agir ou ocupar a categoria do Humano. Esses debates
trouxeram à tona limites, margens e fronteiras borradas, ao mesmo tempo em que
enfatizaram a instabilidade, a fluidez e a vulnerabilidade do humano, bem como suas
relações de interdependência e coabitação com outros.
Hoje, contudo, a crítica ao humanismo parece mover-se em novas direções. Cresce
o reconhecimento de que o humano – ao menos tal como foi convencionalmente concebido
– tem dominado e restringido o horizonte do pensamento crítico, mesmo no interior de
formulações pós-estruturalistas que buscaram deslocar a ênfase da agência e da
intencionalidade do sujeito. Embora com frequência descritas como anti-humanistas,
muitas dessas formulações –associadas às chamadas viradas linguística e cultural – podem,
ainda assim, ter permanecido antropocêntricas. Ao privilegiarem a epistemologia em
detrimento da ontologia, a linguagem em detrimento da matéria e a representação em
detrimento do realismo, tais abordagens mantiveram, em certa medida, o humano como
centro implícito de análise.
Ao mesmo tempo, as condições contemporâneas, que vão da intensificação das crises
ecológicas à proliferação de formas generalizadas de guerra, têm desafiado cada vez mais
a separação moderna entre o humano e seus outros. A natureza, a Terra, o mundo e o
cosmos passam a ser compreendidos como portadores de formas de agência irredutíveis à
subjetividade humana. Essas agências não apenas revelam a distribuição desigual da
condição humana, mas também ameaçam a própria figura do humano enquanto espécie e,
consequentemente, enquanto pressuposto ontológico.
Buscando ecoar uma constelação diversa e pouco redutível de movimentos
intelectuais recentes – entre eles o realismo especulativo, a ontologia orientada a objetos,
os novos materialismos, o panpsiquismo, o perspectivismo ameríndio, os estudos
multiespécies, o pós-humanismo, o pensamento vegetal, as humanidades ambientais, o
pensamento negro radical e os estudos de ciência e tecnologia – este dossiê convida
pesquisadoras e pesquisadores a refletirem sobre os limites de tomar o antropos como
ponto de partida privilegiado para a pesquisa em educação em nosso presente marcado por
catástrofes. O alcance do humano pode não ser, e talvez nunca tenha sido, tão estável ou
autoevidente quanto se supunha. Sua suposta obviedade se torna evasiva quando
examinada em termos ontológicos e materiais. E se o humano já não puder ser separado daquilo que está além ou aquém dele: de entidades, processos e relações que permanecem
parcialmente desconhecidos ou mesmo fundamentalmente inassimiláveis?
Dando continuidade a discussões anteriores – como a seção temática organizada para
Educação & Realidade por Leandro Belinaso e Daniela Ripoll sobre seres vivos,
ambientes e relações ecológicas, esta chamada de artigos propõe estender a crítica
educacional ao humanismo ao engajar-se de forma mais direta com o antropocentrismo
que lhe é subjacente. O dossiê busca reunir contribuições que cartografem respostas
emergentes e especulem sobre imaginários educacionais alternativos capazes de questionar
o recurso automático ao antropos como centro da análise e fundamento das epistemologias
da pesquisa em educação. São bem-vindos, dentre outras possibilidades, artigos teóricos,
ensaios especulativos, análises de experiências educacionais e curriculares, estudos de
caso, resultados de pesquisas empíricas e revisões de literatura. Nesse sentido, os textos
que esperamos reunir funcionarão como exercícios de pensamento por meio dos quais a
educação pode ser reconsiderada para além da suposição de que ela se fundamenta
exclusivamente nas relações entre humanos. Tal suposição tem sido com frequência
sustentada pelo currículo como garantia de um projeto transcendente de formação,
legitimando assim a exclusão de outros seres, materiais e forças do pensamento
educacional.
Orientado pela intuição de que a presença desses movimentos políticos e conceituais
ainda permanece tímida na pesquisa em educação – e longe de ter realizado todo o seu
potencial transformador, este dossiê pretende reunir um amplo conjunto de perspectivas
que explorem como desvios de formas arraigadas de antroponormatividade podem abrir
possibilidades para imaginar a educação de outras maneiras. De fato, ainda não sabemos
o que a pesquisa em educação poderia se tornar, o que poderia fazer ou que formas poderia
assumir fora de um enquadramento antropocêntrico. Historicamente, a escola, os
currículos, assim como noções de formação e conhecimento, têm sido enunciados no
registro antropocêntrico, produzindo teorizações e políticas para o humano individual e
autônomo. Quais os efeitos de pensá-las assumindo uma postura relacional atravessada
pela alteridade? O que a interrogação quanto à centralidade do antropos pode significar à
pesquisa em educação? Como podemos viver a educação a partir de uma ética especulativa
do encontro com e nos mundos mais-que-humanos?
Importa destacar que este dossiê não busca proclamar o fim do humano. Ao
contrário, convida a investigações que examinem os modos pelos quais formas de viver e
morrer podem ser compreendidas como densamente emaranhadas entre e com múltiplas
criaturas, ambientes e mundos. Encontros com monstros e seres artificiais, a convocação
de entidades mais-que-humanas e extra-humanas, o engajamento com objetos e coisas, a
renovada atenção às materialidades e substâncias, bem como a sensibilidade para
infraestruturas e paisagens, interpelam a posição da humanidade como referência ética e
política privilegiada. Esses emaranhados se desdobram por meio de fricções, traduções,
equívocos e transfigurações que complicam qualquer entendimento estável da condição
humana.
Em última instância, o dossiê busca mapear o rico e indeterminado conjunto de
criaturas, figuras e histórias que desafiam o imaginário educacional contemporâneo ao nos
compelir a descentrar o antropos. Será dada atenção, ainda que não apenas, às questões
ecológicas, climáticas e ambientais; às cosmologias ameríndias e afrodiaspóricas; às
transformações sociopolíticas associadas às infraestruturas digitais algorítmicas; e às
configurações animistas do capitalismo planetário, incluindo suas interseções com agendas
políticas ultraconservadoras.
Submissões apenas na seção “Antropos” da revista:
(https://seer.ufrgs.br/educacaoerealidade)
Prazo de submissão: até 30 de novembro de 2026
Publicação: 2027
Áreas do Conhecimento
Detalhes Técnicos
- Classificação:QUALIS A1
- Tipo:Revista Científica
- ISSN:2175-6236
- Taxa:Gratuito (sem taxas)
- Submissão:Até 30/11/2026
Informações de Publicação
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