Chamada de Artigos para Dossiê "Feminismos que Fraturam: epistemologias críticas desde o Sul Global"
Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD
ISSN: 2316-8323
Prazo: sexta-feira, 30 de outubro de 2026
Faltam 64 dias para o encerramento
Descrição da Chamada
Há dez anos, a Monções foi a primeira revista de Relações Internacionais (RI) a publicar, no Brasil, um dossiê inteiramente dedicado ao tema de gênero nesse campo disciplinar. Organizado por Tchella Maso e Katiuscia Moreno Galhera, o dossiê “Feminismo, gênero e Relações Internacionais” reuniu dez artigos de autoras e autores na área. À época, as organizadoras chamavam atenção não apenas para a marginalização desses debates nas RI, mas sobretudo para a abundância de contribuições que já demonstravam o interesse que o tema suscita entre estudantes e pesquisadores na e para além da disciplina.
No entanto, esse interesse ainda não se traduz em uma presença mais significativa de contribuições em revistas brasileiras. Esse descompasso nos parece estar relacionado ao baixo recrutamento de professoras especialistas nas instituições de ensino superior. As que aí estão, apesar dos seus esforços, não conseguem suprir a demanda criada para que artigos entusiasmados, mas conduzidos sob negligência bem-intencionada de não-especialistas, atinjam seu potencial. Que este dossiê seja mais um passo na direção de atualizar diálogos e debates, mas também de esclarecer que o estudo de gênero se faz a partir de trabalho crítico, rigoroso e especializado, que requer reconhecimento institucional.
São muitas as contribuições que o pensamento feminista tem oferecido ao campo das RI. Para além de tensionar o estadocentrismo teórico e analítico característico da disciplina, as pesquisas inspiradas por categorias de gênero e sexualidade têm enriquecido o campo ao questionar noções universalizantes e ordenadoras sobre o internacional e quem faz parte dele. O volume 17 da revista Millenium, publicado em 1988, foi um dos pioneiros em destacar essa contribuição em escala internacional; e o já mencionado dossiê da Monções fez esse movimento no Brasil, quase trinta anos mais tarde. A partir destes e de outros antecedentes, as categorias de gênero e sexualidade foram afirmadas como parte indisputável dos debates sobre as relações internacionais.
Mesmo assim, o campo das RI segue sendo marcado por uma ilusão de neutralidade que se traduz numa insistência de pesquisadores e instituições da área em empurrar para as margens abordagens queer e feministas, ainda atribuindo a elas o status de “novidade” ou de “pouca relevância”. Tais práticas revelam a discriminação, o sexismo e a opressão presentes tanto nas dimensões ontológicas, metodológicas e epistemológicas do campo quanto nas práticas institucionais dos locais onde se produz conhecimento científico (Baccarini, Minillo e Alves, 2019).
Este dossiê visa a contribuir para esforços recentes de dar novo fôlego a abordagens críticas feministas nas RIs desde o Sul Global, particularmente aquelas que vêm fazendo um movimento reflexivo de pensar sobre as suas próprias demarcações e limites (Butler, 2017). Por exemplo, contra-histórias sobre a luta das mulheres por igualdade têm ganhado espaço na confrontação da narrativa do feminismo como um movimento que evolui, a partir da Europa, por meio de ondas. Assim, o feminismo tem sido recentemente compreendido como um fenômeno global, alimentado também pela efervescência social e política que movimentou o Terceiro Mundo a partir dos anos 1950 (Abreu, 2010). Essas narrativas dissidentes desafiam a genealogia das produções feministas conectadas a uma branquitude europeia e ciscentrada, além de demonstrar como opera o silenciamento característico do pensamento que não leva em conta a interseccionalidade das experiências (Nascimento, 2021). A homogeneização desqualificadora que resulta dessas dinâmicas limita o campo quanto à incorporação das demais sujeitas do internacional (Collins, 2019; Tamale, 2020). Além do “perigo da história única” (Adichie, 2009), esse processo também carrega o risco do distanciamento de “outros feminismos” em relação ao mainstream feminista nas RI (Espinosa-Miñoso, 2015).
O dossiê “Feminismos que Fraturam: Epistemologias Críticas desde o Sul Global” parte da premissa de que a existência de normas e fronteirizações operadas por elas não necessariamente implica um obstáculo, tampouco o estabelecimento ou a reconfiguração de oposições binárias. Propomos pensar, ao invés disso, em como geram possibilidades. Normas podem ser resistidas e subvertidas; podem ser cruzadas, deslocadas, tensionadas, assim como vividas, desejadas e incorporadas (Mahmood, 2005). Para tal, é necessário coragem e criatividade para pensar mundos outros, despindo-se da arrogância controladora característica do imperialismo (Lugones, 1987).
Considerando que o apego à disciplina das RI promove uma autocensura contra aportes que contribuem para uma interpretação queerfeminista e decolonial das políticas internacionais, o presente dossiê acolhe esses enfoques em seus efeitos perturbadores da estabilidade e da legitimidade no campo das RI (Weber, 2015). Da mesma maneira, o apego a um feminismo de proposições universais pode provocar a desconfiança de movimentos que lutam contra a desigualdade e opressão em relação à luta feminista – daí o interesse particular deste dossiê por contribuições que trabalhem o potencial transformador de “feminismos que fraturam”.
Movidas pela vontade de superar os desafios aqui apresentados para a promoção da justiça e da equidade, e pelo simultâneo desejo de desafiar os limites estabelecidos por e para as RI, convidamos contribuições empíricas, teóricas, literárias e artísticas, além de reflexões sobre as fronteiras disciplinares dos feminismos nas RI. Convidamos, ainda, a pensar para além de binários, em um exercício de imaginação política no desenvolvimento de ferramentas analíticas.
Além de achados de pesquisas, serão especialmente bem-vindos textos sobre os próprios processos de desenvolvimento de pesquisas e acesso a recursos para a realização de pesquisas sobre os “outros feminismos” no Brasil e no Sul Global. Também serão particularmente encorajados artigos, resenhas, relatos, vivências e experiências concretas que versem sobre questões como:
Que questões, atores e problemas internacionais são revelados a partir de olhares feministas marginais? Qual a importância dessas revelações para a redefinição de fronteiras disciplinares das RI?
Quais são os limites de feminismos brancos, cis e liberais como práticas políticas e sistemas epistemológicos?
De que forma desafiar a unicidade do feminismo pode contribuir para o estudo do internacional?
Como se encontram situados os estudos feministas e queer nas RI produzidos a partir de territórios e práticas localizados no que entendemos como Brasil?
Prazo para recebimento de artigos: 30 de outubro de 2026
Lançamento do número: julho de 2027
Organizadoras:
Dra. Xaman Minillo (UFPB)
Dra. Camila Andrade (UFBA/IPATC)
Dra. Flávia Belmont (pós-doutoranda INCT Caleidoscópio UnB)
Dra. Izadora Xavier do Monte (UEPB)
Ma. Bianca Mendes Araújo (Doutoranda PPGCPRI UFPB)
Referências
ABREU, Maira. Feminismo no exílio: o Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris e o Grupo Latino-Americano de Mulheres em Paris 2010. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, 2010. BILGE, Sirma.
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. The danger of a single story. YouTube, publicado por TED, 7 jul. 2009. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=D9Ihs241zeg. Acesso em: 13 abr. 2025.
BACCARINI, Mariana Pimenta Oliveira; MINILLO, Xaman Korai; ALVES, Elia Elisa Cia. “Gender issues in the ivory tower of Brazilian IR”. Contexto Internacional, v. 41, n. 02, p. 365-396, 2019.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 13a ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira 2017.
COLLINS, Patricia Hill. Pensamento Feminista Negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. São Paulo: Boitempo, 2019.
ESPINOSA MIÑOSO, Yuderkys. El futuro ya fue: una crítica a la idea del progreso en las narrativas de liberación sexo-genéricas y queer identitarias en Abya Yala. In: FERRERA-BALANQUET, Raul Moarquech (comp.). Andar erótico decolonial. Buenos Aires: Ediciones El Signo, 2015. p. 21-3
LUGONES, Maria. Playfulness, “world”-travelling, and loving perception. Hypatia, v. 2, n. 2, p. 3-19, 1987.
MAHMOOD, Saba. Politics of Piety: The Islamic Revival and the Feminist Subject. Pinceton and Oxford: Princeton University Press, 2005. 233 p.
NASCIMENTO, Letícia Carolina Pereira do. Transfeminismo. São Paulo: Jandaíra, 2021.
TAMALE, Sylvia. Decolonization and Afro-Feminism. Ottawa: Daraja Press, 2020.
WEBER, Cynthia. 2015. “Why Is There No Queer International Theory?” European Journal of International Relations 21 (1): 27–51. https://doi.org/10.1177/1354066114524236.
Áreas do Conhecimento
Detalhes Técnicos
- Classificação:QUALIS A2
- Tipo:Revista Científica
- ISSN:2316-8323
- Taxa:Gratuito (sem taxas)
- Submissão:Até 30/10/2026
Informações de Publicação
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