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Chamada DOSSIÊ: DE DANTE AOS BURACOS NEGROS: Poéticas do Ininteligível e a Crise da Representação da Ciência Contemporânea

Revista Em Tese (UFMG)

ISSN: 1982-0739

Prazo: quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Faltam 35 dias para o encerramento

Descrição da Chamada

Organização:

Danilo de Athayde (Universidade Federal de Minas Gerais/Universidade do Porto)

danilodeathayde@gmail.com

Prazo de envio das submissões: 30/09/2026.

Submissões em: Faça uma submissão

*Please scroll down to find the English version*

Palavras-chave: Literatura, Artes e Ciência; Estudos de Ciência e Tecnologia (STS); Crise da Representação; Estética e Epistemologia; Visualização Científica

A literatura sempre negociou com os regimes de totalidade. Se a figura da “Máquina do Mundo”, de Dante a Camões, traduzia a cosmologia clássica num horizonte de inteligibilidade em que a totalidade do cosmos se oferecia como uma arquitetura visível e ordenada, a erosão dessa imagem na modernidade desemboca na episteme contemporânea, que nos confronta com uma ruptura radical na capacidade de imaginar o real. A física atual descreve a natureza fundamental por meio de conceitos-limite como a singularidade dos buracos negros, a indeterminação quântica e relações que excedem a intuição sensível. Em linhas amplas, como propõe Carlo Rovelli, a realidade deixa de ser pensada como uma coleção estável de “coisas” para ser descrita como uma trama de “eventos”, interações e medidas, dependentes de mediações e regimes de observação. O resultado é um paradoxo cultural no qual modelos de altíssima precisão operativa convivem com uma opacidade cognitiva crescente, isto é, funcionam, mas resistem à visualização direta e, muitas vezes, à narrativa comum que tornava o conhecimento “habitável”.

Partimos, então, do diagnóstico de uma escassez alegórica contemporânea, um vácuo aberto quando a inteligibilidade deixa de ser garantida por figuras totalizantes (cosmos, ordem, centro, harmonia) e passa a depender de formalismos abstratos e caixas-pretas tecnológicas. A crise da representação, nesse sentido, não é exclusiva do texto literário; ela atravessa o imaginário cultural contemporâneo, do diagrama científico (cuja complexidade na produção da objetividade é problematizada por historiadores como Peter Galison e Lorraine Daston) às dificuldades das artes em dar forma a escalas que excedem o mesocosmo da experiência humana, a temporalidades não lineares, a causalidades distribuídas, a fenômenos inobserváveis, e à própria intransparência técnica, da explicabilidade dos algoritmos de IA às infraestruturas de dados que organizam a vida social. Quando a ciência avança para além da experiência comum, a questão passa a ser não apenas o que ela diz, mas como ela produz legibilidade, e a que custo político e estético.

Essa interrogação ganha pertinência histórica no atual cenário acadêmico. Nos últimos anos, tem-se ampliado a circulação internacional do debate sobre literatura, ciência e artes no Sul Global, o que abre uma oportunidade estratégica para situar, a partir do Brasil, as discussões sobre os limites da representação tecnocientífica e as implicações éticas e políticas dessa ilegibilidade. Nesse contexto, convidamos pesquisadores a submeterem trabalhos que investiguem as poéticas do ininteligível: estratégias de criação e formalização mobilizadas para lidar com essa reconfiguração da representação. O dossiê acolherá abordagens comparatistas, teóricas e críticas, bem como estudos de caso ancorados na literatura, ficção especulativa, artes visuais, mídias digitais, arquivos, controvérsias e dispositivos, entre outras formas, em diálogo com os Estudos de Ciência e Tecnologia (STS), a História das Ciências e a Filosofia.

No horizonte desta proposta, está a busca por um “novo humanismo pós-reducionista” como uma perspectiva que visa superar a dicotomia entre as “duas culturas”, recusando tanto o relativismo indiferente à prova quanto o determinismo tecnocrático. A aposta é que, na fricção entre regimes de explicação e regimes de figuração, possamos reconhecer a incompletude como condição constitutiva do contemporâneo, com consequências estéticas, epistemológicas e políticas.

Perfil das Submissões

Este número temático busca contribuições que operem na fronteira entre a Estética, a Epistemologia e os Estudos da Ciência. Interessam-nos trabalhos que demonstrem como o texto literário ou o objeto artístico pensa através da sua forma, produzindo inteligibilidade e oferecendo tradução ou fricção aos modelos oferecidos pela tecnociência.

Tópicos Sugeridos para Submissão

Esta lista é sugestiva e não restritiva. Propostas que articulem o problema central do dossiê (representação e legibilidade frente à opacidade tecnocientífica) são bem-vindas, para além dos eixos listados.

a) Poéticas do Ininteligível: escalas e limites

Da Máquina do Mundo ao Multiverso: a crise dos modelos totalizantes na literatura e nas artes, do cosmos dantesco às ficções de multiverso.
A Ciência Medieval Hoje: reativações e deslocamentos de formas pré-modernas (analogia, correspondência, maravilha, bestiários) na imaginação tecnocientífica e literária contemporânea.
Sublime Matemático e Ecológico: soluções formais e estéticas diante de objetos incomensuráveis (buracos negros, matéria escura, catástrofes climáticas, o tempo profundo).
O Ilegível e o Impensável: estratégias narrativas de incerteza, incompletude e recusa de fechamento em obras contemporâneas para figurar o que resiste à representação.
Ficções Teóricas e o Mito como Método: o uso de metáforas e modelos imaginários pela própria ciência e a literatura e as artes como dispositivos cognitivos para testar os limites da inteligibilidade.
b) Alegorias Técnicas e Ficções da Caixa-Preta

Narrar o Algoritmo: como a literatura e as artes representam processos invisíveis de IA, big data e infraestruturas digitais (Alegorias da Caixa-Preta).
Estética do Dado e Ficção de Arquivo: apropriação literária de documentos, relatórios, laudos e diagramas científicos; a estética burocrática transposta para o romance e as artes visuais.
Ficções do Pós-Humano e da Mente: a representação literária da edição genética, de corpos modificados e da neurodivergência; o corpo e a consciência como fronteiras epistemológicas.
Controvérsias em Cena: a dramatização literária ou artística de disputas públicas sobre verdade, ciência e tecnologia (clima, saúde, IA).
c) Imaginários da Ciência no Sul Global

Novos Humanismos Pós-Reducionistas: o debate das "duas culturas" hoje no Brasil e na América Latina. Propostas de superação da dicotomia entre humanidades e ciências duras através de uma terceira margem epistemológica.
Futurismos Periféricos: Afrofuturismo, Futurismo Indígena, distopias periféricas e a ficção científica brasileira como laboratórios para pensar a técnica e a ciência a partir do Sul Global.
Ciência e Modernização no Brasil: representações do cientista, do laboratório e da modernização técnica no cânone e na literatura contemporânea nacional.
Justiça Epistêmica e Tradução: como a literatura do Sul Global reconfigura, contesta ou traduz imaginários científicos e formas de prova do Norte.

Para a seção Resenhas, convidamos a submissão de textos dedicados a obras publicadas nos últimos três anos que incidam sobre os debates mobilizados por este dossiê, em especial nos campos dos Estudos de Ciência e Tecnologia (STS), História e Filosofia das Ciências, e suas interfaces com Literatura, artes e humanidades.

À seção Poéticas, pode ser submetida produção autoral de natureza artística — como textos experimentais, ensaios visuais, fotografias, ilustrações, vídeos, áudios e escritas híbridas — que investigue formalmente os limites da representação e dialogue com a temática central do dossiê, preferencialmente acompanhadas de uma breve nota de apresentação (até uma página) situando o gesto estético e suas mediações.

A Em Tese é um periódico eletrônico semestral do Programa de Pós-graduação em Estudos Literários da UFMG dedicado a divulgar produções e pesquisas nas áreas de Estudos Literários e de Artes. Para além dos textos do dossiê, a revista aceita, em fluxo contínuo, textos inéditos que contemplem as áreas de Teoria da Literatura, Literatura Brasileira, Literaturas Clássicas e Medievais, Literaturas Estrangeiras Modernas, Literaturas de Língua Inglesa e Literatura Comparada.

Áreas do Conhecimento

Literatura Brasileira
Teoria Literária
Literatura Comparada
Literaturas Estrangeiras
Literatura Portuguesa

Detalhes Técnicos

  • Classificação:
    QUALIS A2
  • Tipo:Revista Científica
  • ISSN:1982-0739
  • Taxa:Gratuito (sem taxas)
  • Submissão:Até 30/09/2026

Informações de Publicação

Publicado em: 01/04/2026
Atualizado em: 01/04/2026

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