Chamada para Artigos: "A literatura para crianças e jovens no Brasil e em Portugal"
Revista Desassossego - USP
ISSN: 2175-3180
Prazo: domingo, 15 de novembro de 2026
Faltam 69 dias para o encerramento
Descrição da Chamada
Organizadores: Ana Margarida Ramos (Universidade de Aveiro, Portugal), Francisco Topa (Universidade do Porto, Portugal), Marcia Arruda Franco (Universidade de São Paulo, Brasil), Paulo César Ribeiro Filho (Universidade de São Paulo, Brasil) e Sara Raquel Duarte Reis Silva (Universidade do Minho, Portugal)
“Aos infelizes, aos pobres e a todas as crianças que a fortuna despreza e o amor não conhece nem beija, ofereço, humildemente, as páginas deste meu livro”. Essa é a dedicatória feita pelo poeta, dramaturgo e contista português António Botto (1942, p. 11) para uma edição de seus contos infantis. Sempre que refletimos sobre o espaço que as crianças ocupam nos (polis)sistemas literários mundo afora, do passado à contemporaneidade, somos convidados a visitar um campo do conhecimento multidisciplinar, que pode conjugar contribuições de disciplinas como a sociologia, a psicologia, a antropologia, a pedagogia, o design e a editoração, para citar algumas. Fora do núcleo mais imediato de consumo e produção de capital, crianças e outras figuras marginalizadas têm tido suas necessidades básicas de acesso à arte parcamente supridas, e os estudos das literaturas a elas destinadas ainda têm ocupado pouco espaço em ambientes acadêmicos. Tal cenário faz ecoar a imagem criada por Walter Benjamin (2012, p. 257) da criança como um ser “irresistivelmente atraído pelos detritos” deixados pelos adultos, a partir dos quais ela engendra novas concepções, dando formas novas e originais ao que foi por eles preterido. Daí é que o pensador arremata:
"O observador perspicaz encontra exatamente nas áreas menos prestigiosas da criação literária e artística - como a literatura infantil e juvenil - aqueles elementos que procura em vão nos documentos reconhecidos da cultura" (Benjamin, 2012, p. 259).
Nelly Novaes Coelho (2000, p. 13, in memoriam), fundadora da área de Literatura Infantil e Juvenil da Universidade de São Paulo, indica que a literatura para crianças e jovens — o que se expande à noção geral de Literatura enquanto Arte — encontra-se diretamente relacionada à divulgação de “valores culturais que dinamizam uma sociedade ou uma civilização”; a pesquisadora atribui à literatura infantil e juvenil o potencial de gerenciar as novas consciências por intermédio da linguagem. Benjamin Abdala Jr. (2012) endossa o posicionamento de Coelho e é sintomático ao sugerir que é preciso assumir atitudes mais ativas e propositivas para criar ou desenhar, com matização mais forte, tendências que embalam a noção de devir encapsulada no ser criança (a infância como “sociedade em crisálida”, tal como propõe Florestan Fernandes), apontando para a necessidade de uma literatura infantil e juvenil ao mesmo tempo lúdica e lúcida, engajada na gestação de novos paradigmas progressistas. Em consonância com Abdala Jr., Américo Diogo (1994) enfatiza o cosmopolitismo do leitor infantil, sugerindo que a literatura para crianças “integra algo que muito se parece com o espaço da própria humanidade dialogante”. Tal menção ao caráter cosmopolita da criança leitora nos conduz, por fim, à análise do que aqui denominamos literatura cross-age, aquela que rompe limites etários e seduz públicos diversos, superando balizas cronológicas e transpassando obstáculos geracionais, cativando audiências variadas. Parte da obra poética de autores como Manoel de Barros e Fernando Pessoa, por exemplo, tem sido editada como livros destinados a leitores infantis e juvenis, com projetos gráficos cuidadosamente elaborados para esse público-alvo. Sobre esse fenômeno e suas variações, reflete Cecília Meireles (2016, p. 19-20):
"Ah! Tu, livro despretensioso, que, na sombra de uma prateleira, uma criança livremente descobriu, pelo qual se encantou e, sem figuras, sem extravagâncias, esqueceu as horas, os companheiros, a merenda... Tu, sim, és um livro infantil, e o teu prestígio será, na verdade, imortal".
Vale ressaltar que um dos desafios da literatura cross-age reside no preconceito arraigado de setores da sociedade que veem a presença de ilustrações, por exemplo, como um sinal de menoridade estética ou intelectual, inerente ao que depreciativamente classificam como literatura infantil e juvenil (associando o gênero, por desconhecimento, a livros didáticos, paradidáticos, de função morigerante ou com função referencial), sintoma de uma hierarquização que historicamente subalterniza as obras voltadas, ainda que parcialmente, ao público infantil e juvenil.
Com base em tais reflexões, propomos o dossiê temático A literatura para crianças e jovens no Brasil e em Portugal, com ênfase em reflexões teóricas sobre a natureza e a função da literatura infantil e juvenil do passado à contemporaneidade e na análise de obras de autores e/ou ilustradores brasileiros e portugueses produzidas nos últimos vinte a cinco anos. As abordagens podem variar conforme os seguintes eixos temáticos:
• Temas, tendências e desafios da literatura para crianças e jovens no Brasil e em Portugal no século XXI;
• O livro enquanto objeto: reflexões sobre a materialidade da arte destinada a crianças e jovens no Brasil e em Portugal;
• Livros e leituras em ambiente escolar no Brasil e em Portugal no século XXI: acervos e políticas de acesso à arte literária;
• Aspectos formais, temáticos e semânticos de obras literárias cross-age no Brasil e em Portugal;
• Tendências, desafios e contradições da literatura cross-age no Brasil e em Portugal;
• Literatura brasileira e portuguesa para crianças e jovens em perspectiva comparatista com a arte produzida nos países e comunidades de língua oficial portuguesa.
Além do dossiê temático, a Revista Desassossego conta com a recepção de texto em fluxo contínuo para a seção VÁRIA, para a qual recebemos artigos científicos relacionados à literatura e cultura portuguesas; e a seção OUTROS DESASSOSSEGOS, na qual publicamos textos poéticos e autorais inéditos enviados por nossos leitores. Ainda podem ser publicadas RESENHAS de livros editados nos últimos cinco anos ou ENTREVISTAS com nomes relevantes para a temática da revista.
PRAZO PARA ENTREGA: Os artigos, resenhas e entrevistas relacionadas ao dossiê temático A literatura para crianças e jovens no Brasil e em Portugal serão recebidos até 15 de novembro de 2026. A publicação está prevista para maio de 2027.
Referências:
ABDALA JR., Benjamin (Org.). Estudos Comparados: Teoria, Crítica e Metodologia. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2014.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 8ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2012.
BOTTO, António. Contos. Porto: Livraria Latina Editora, 1942.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura: Arte, Conhecimento e Vida. São Paulo: Peirópolis, 2000.
DIOGO, Américo António Lindeza. Literatura infantil: História, teoria, interpretações. Porto: Porto Editora, 1994.
FERNANDES, Florestan. “Os grupos infantis”. In: FERNANDES, Florestan. Folclore de mudança social na cidade de São Paulo. Petrópolis: Vozes, 1979.
MEIRELES, Cecília. Problemas da literatura infantil. 4ª ed. São Paulo: Global, 2016.
Áreas do Conhecimento
Detalhes Técnicos
- Classificação:QUALIS A4
- Tipo:Revista Científica
- ISSN:2175-3180
- Taxa:Gratuito (sem taxas)
- Submissão:Até 15/11/2026
Informações de Publicação
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