Chamada para Dossiê "Corpos e territórios em foco: disputas coloniais e simbólicas nas Ciências Sociais"
Revista Aurora - Unesp
ISSN: 1982-8004
Prazo: sexta-feira, 25 de setembro de 2026
Faltam 45 dias para o encerramento
Descrição da Chamada
Convidamos as pessoas pesquisadoras a compartilharem suas reflexões sobre o corpo–território como conceito chave para compreender as disputas coloniais, sociais e simbólicas que atravessam a contemporaneidade. Partindo de perspectivas críticas das Ciências Sociais, busca-se explorar como corpos e territórios são historicamente produzidos, regulados e violentados por dinâmicas coloniais, capitalistas, patriarcais e raciais, ao mesmo tempo em que se constituem como espaços de memória, agência e luta.
O conceito de corpo–território tem origem nos saberes e nas lutas dos povos indígenas da América Latina, especialmente no pensamento e na experiência política das mulheres Aymara, sendo posteriormente apropriado e reelaborado por feminismos comunitários e percepções decoloniais, e, nessa perspectiva, corpo e território são indissociáveis. Ao compreender o corpo não apenas como entidade biológica, mas como território de inscrição de relações de poder e cultura, pretende-se ampliar o debate sobre como as Ciências Sociais podem descolonizar suas análises e dar centralidade às vozes e experiências historicamente silenciadas, fortalecendo o entendimento das disputas contemporâneas em torno da vida, da terra e da memória.
Nesse sentido, buscamos trabalhos que discutam como a dominação colonial dos territórios está intrinsecamente articulada à produção de hierarquias de gênero, raça e sexualidade que viabilizam e legitimam projetos de dominação/intervenção, a partir do pressuposto de que a conquista, o controle e a exploração dos territórios não se realizam apenas por meio da ocupação material do espaço, mas exigem a constituição de regimes de classificação, normatização e diferenciação dos corpos. Da mesma forma, pesquisas que abordem as relações entre território, corpo e memória, considerando experiências de deslocamento, violência, pertencimento, ancestralidade e narrativas de vida, buscando compreender como as memórias individuais e coletivas produzem territorialidades através da diferenciação do território – como espaço físico, geopolítico e material –, e da territorialidade – entendida como experiência vivida, simbólica e relacional. Nesse contexto, partindo-se do pensamento do corpo como espaço de inscrição da memória, evidencia-se como as experiências de deslocamento, violência e resistência se entrelaçam na produção de narrativas de pertencimento, desafiando os apagamentos da lógica colonial diante do avanço do capitalismo global.
Incentiva-se ainda pesquisas que contemplem análises sobre como os corpos, assim como os territórios, se tornam campos de disputa colonial, revelando hierarquias de valor da vida e seletividade na produção de narrativas. Assim, busca-se compreender as disputas territoriais e simbólicas a partir da articulação da geopolítica e da biopolítica, ao mesmo tempo que se abre para pesquisas que tragam experiências de resistências e contra-narrativas, propondo alternativas de descolonização do saber. Também interessam análises sobre a dataficação da vida e suas formas de classificação, vigilância e extração, enquanto mediações que reconfiguram a produção colonial de corpos e territórios, bem como resistências e contra-usos.
Além disso, a Revista Aurora oferece a oportunidade de divulgar pesquisas e narrativas de experiências de campo que abordem a centralidade do corpo da pessoa pesquisadora (marcada por gênero, raça, sexualidade e biografia) nas pesquisas de campo das ciências sociais, sobre os modos pelos quais essa centralidade incide na produção da escrita etnográfica e na interação com os sujeitos de pesquisa e com o campo, influenciando diretamente a produção de conhecimento, pois acreditamos que a diversidade de temas e abordagens, desde que alinhadas aos padrões de qualidade e ética científica enriquecem o debate acadêmico, contribuindo para a construção de um conhecimento cada vez mais qualificado e relevante. Desse modo, contamos com a participação de todas as pessoas interessadas a compartilhar seus estudos e discussões sobre os sentidos e os efeitos da corporeidade no fazer etnográfico, evidenciando que a presença corporal e material da pessoa pesquisadora em campo produz lugares de fala específicos, os quais influenciam os modos de ver, fazer, pensar e escrever etnografias e também sobre como o corpo pode ser instrumento metodológico para a produção de conhecimento científico.
Em síntese, procuramos investigar como Estado, instituições e disputas por legitimidade produzem e regulam corpos e territórios. Isso inclui análises sobre governança e políticas públicas (saúde, assistência, segurança, urbanismo, habitação, educação e sistema prisional), com foco em implementação e efeitos: quem acessa direitos, quem é alvo de controle e como desigualdades se tornam rotinas administrativas. Também abrange estudos sobre violência, segurança e políticas de controle (policiamento, militarização, encarceramento e repressão), especialmente em “territórios de exceção” como periferias, fronteiras e áreas de conflito. Soma-se a isso a dimensão da representação e participação, examinando como movimentos indígenas, feministas, antirracistas e LGBTQIA+ transformam corpo–território em agenda pública, articulando repertórios de ação, coalizões e institucionalização de pautas. Outro campo central é o das políticas de memória e justiça, tratando a memória como disputa institucional (reparação, comissões, museus, currículos, monumentos) e perguntando quem define “verdade”, “vítima”, “herói” e “ameaça”. Por fim, entram pesquisas sobre comunicação política e disputa simbólica, explorando enquadramentos, campanhas, moralidades públicas e “pânicos morais” em mídia e plataformas, podendo incluir, quando pertinente, a dataficação da vida como governança por métricas e classificação.
O dossiê receberá submissões até o dia 25/09/2026.
Eixos de pesquisa sugeridos:
Gênero, raça e sexualidade como eixos estruturantes da dominação colonial dos territórios
Território, corpo e memória
O corpo e o território em situação de conflitos
Trabalho de campo e percepções autoetnográficas: o corpo da pessoa pesquisadora como ferramenta produtora de conhecimento
Bibliografia sugerida:
Agamben, G. (1998). Homo Sacer: Sovereign Power and Bare Life. Stanford University Press.
Beiguelman, G. (2021). Políticas da imagem: vigilância e resistência na dadosfera. Ubu.
Butler, J. (2023). Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto?. Civilização Brasileira.
Das, V. (2011). O ato de testemunhar: violência, gênero e subjetividade. Dossiê: Violência: outros olhares Cad. Pagu (37) https://doi.org/10.1590/S0104-83332011000200002
Favret-Saada, J. (2005). “Ser afetado”. Tradução de Paula Siqueira. Cadernos De Campo, 13(13), pp. 155-161. https://doi.org/10.11606/issn.2316 9133.v13i13p155-161
Gago, V. (2020). A potência feminista ou o desejo de transformar tudo (I. Peres, Trad.). Editora Elefante.
Haesbaert, R. (2020). Do corpo-território ao território-corpo (da terra): contribuições decoloniais. GEOgraphia, 22(48). https://doi.org/10.22409/GEOgraphia2020.v22i48.a43100
Lemos, A. (2021). Dataficação da vida. Civitas – Revista de Ciências Sociais, 21(2), pp. 193–202. doi:10.15448/1984-7289.2021.2.39638.
Marcus, G. (1995). Ethnography in/of the world system: the emergence of multisited ethnography. Annual Review of Anthropology, 24, pp. 95–117.
Mbembe, A. (2003). Necropolitics [Tradução de Libby Meintjes]. Public Culture, 15(1), pp. 11–40. DOI: 10.1215/08992363-15-1-11. Disponível em: https://read.dukeupress.edu/public-culture/article/15/1/11/31714/Necropolitics.
Nascimento, S. de S. (2019). O corpo da antropóloga e os desafios da experiência próxima. Revista De Antropologia, 62(2), 459-484. https://doi.org/10.11606/2179 0892.ra.2019.161080
Miranda, E. O. (2020). Corpo-território & educação decolonial: Proposições afro-brasileiras na invenção da docência. EDUFBA.
Noble, S. U. (2018). Algorithms of oppression: how search engines reinforce racism. New York University Press.
Ricaurte, P. (2019). Data epistemologies, the coloniality of power, and resistance. Television & New Media, 20(4), pp. 350-365. https://doi.org/10.1177/1527476419831640.
Santos, F. V. dos S., & Ferreira, M. A. (2022). O corpo-território: feminismos decoloniais, saúde e estratégias dos movimentos de mulheres indígenas na Amazônia brasileira. (Syn)thesis, 15(1), 30–44. https://doi.org/10.12957/synthesis.2022.69285
Silva, G. M., & Dealdina, S. S. (2020). Mulheres quilombolas: territórios de existências negras femininas. Jandaíra.
Silveira, S. A. da (2025). As big techs e a guerra total: complexo militar-industrial-dataficado. Hedra.
Vergès, F. (2021). Uma teoria feminista da violência. Ubu.
Zuboff, S. (2019). The age of surveillance capitalism: the fight for a human future at the new frontier of power. PublicAffairs, 2019.
Organização:
Bruna Silva Oliveira (UNESP)
Giovanna Bem Borges (UNESP)
Keilla Kaori Watanabe (UNESP)
Milena Registro (UNESP)
Ruan Sales da Paula Pinheiro (UNESP)
Sintilla Abreu Bastos Cartaxo (UENF)
(Membras/os do Conselho de Editoras/es da Revista Aurora)
Áreas do Conhecimento
Detalhes Técnicos
- Classificação:QUALIS B2
- Tipo:Revista Científica
- ISSN:1982-8004
- Taxa:Gratuito (sem taxas)
- Submissão:Até 25/09/2026
Informações de Publicação
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